Seg, 09 de novembro de 2020, 13:31

Jorge e o Carvalho: uma resenha crítica
Luiz Eduardo Oliveira
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Conheci Jorge Carvalho do Nascimento como Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFS (PPGED). Foi uma época em que estava bastante empenhado em arregimentar dez professores da instituição já Mestres, de qualquer área, que estivessem dispostos a adentrar o campo da História da Educação, implementando assim um Programa de Cooperação Acadêmica (PROCAD) com o Programa de Pós-Graduação em Educação: História, Política, Sociedade, da PUC de São Paulo. Fui um dos professores desse grupo, e a partir e 2001 iniciamos uma sólida amizade e parceria intelectual. Seu intuito, na época, era formar quadros para a implantação do Doutorado em Educação na UFS, projeto no qual estava tão entusiasmado que chegou a candidatar-se a Reitor da instituição onde era professor do Departamento de História e do já referido PPGED (então NPGED). Depois de alguns grandes feitos acadêmicos, dentre eles a organização do V Congresso Brasileiro de História da Educação, em 2008, realizado na UNIT, colocando definitivamente Sergipe no mapa da pesquisa em História da Educação, e de algumas decepções, decidiu licenciar-se da Universidade e dar continuidade a uma já experiente carreira de gestor fora da UFS, onde foi Diretor do Cultart, como secretário de governo na gestão de Macelo Deda.

Como bem lembra nosso amigo comum e colega de UFS Luciano Correia, Jorge Carvalho tem um currículo invejável. Desempenhou o cargo desafiador de secretário da educação do estado e do município, de diretor da Segrase, onde fez um importante trabalho editorial, sobretudo junto ao saudoso poeta, cronista e jornalista Amaral Cavalcante, no projeto da revista Cumbuca, dentre outros cargos e funções que sua vida de intelectual e de militância política o levaram. A par dessa militância, que desde sempre o fez romper o muro da academia para entrar nas questões mais concretas e urgentes da cidade e do estado, sua experiência como jornalista dotou-o com uma habilidade no trato com a linguagem que o capacitou a escrever vários gêneros textuais: de artigos e ensaios científicos a textos mais leves, de crônica e comentário político, sem falar no blog que sempre alimentou sobre história da educação, e que tem sido alimentado ultimamente com suas crônicas e memórias, de que seu O Carvalho constitui o primeiro resultado em livro.

Confesso que já tinha “ouvido” algumas das histórias contidas no livro, nas longas viagens de carro que fizemos juntos aos congressos da vida ou nos momentos em que pudemos compartilhar de uma boa mesa, de bar, restaurante ou mesmo de debate e avaliação. Mas testemunhei também seu desejo, já desde a época em que era coordenador de pós-graduação, de escrever e publicar algo mais “literário”. E o resultado veio em boa hora, da pena de um Jorge Carvalho aposentado da UFS, longe dos confrontos e conflitos políticos e acadêmicos, em paz com vida e empenhado em seu hobby mais recente, a fotografia, de que já tem inclusive um livro, publicado na época em que era secretário de estado da educação do estado.

O livro, em minha avaliação, pode ser dividido em duas partes: uma primeira composta de memórias do matriarcado Carvalho, como ele mesmo denomina, responsável, como reitera em sua “Nota introdutória”, intitulada “Histórias de Boa Madeira”, por sua formação como pessoa, e outra por pequenos relatos fictícios ambientados em Sergipe e nas regiões circunvizinhas em épocas distantes, às vezes nos anos 70 de sua juventude, nos anos 60 de sua infância ou nos anos 40 da ditadura de Vargas. Assim, O Carvalho se compõe de memórias e de contos, alguns claramente autobiográficos, outros ambientados historicamente.

As memórias de sua avó Petrina e sua Tia Terezinha são as mais frequentes, motivo pelo qual as duas personagens assumem uma razoável densidade psicológica – mais a avó do que a tia. O livro começa com a história de duas promessas, uma realizada, de sua mãe a São Jorge, prometendo dar o nome do santo caso tivesse um filho, e uma frustrada, de sua avó, de o menino ser padre. As demais histórias, como a primeira, trazem uma riqueza de detalhes e informações locais, regionais e históricas que faz os relatos transcenderem o âmbito pessoal para alcançar o status de documento, algo intencional, dada a acuidade do historiador Jorge Carvalho. Assim, o relato da chegada da primeira geladeira na casa de sua avó materna (“Sua Magestade, a Gelomatic”) é também um breve olhar histórico-sociológico sobre a chegada da geladeira nos lares brasileiros e nordestinos, bem como sobre o desenvolvimento da indústria nacional. O mesmo ocorre com a chegada da televisão, que narra também a chegada da TV Sergipe em nosso estado (“TV sem TV e TV com TV”).

Uma vez ou outra, a enumeração de marcas de geladeiras, televisões, automóveis do narrador, que não esconde para o leitor que também é pesquisador e historiador, além de um curioso que busca os significados e as origens das palavras oriundas dos falares regionais de sua vida errante, prejudica a leveza do escritor, que, embora consiga se desvencilhar facilmente dos cacoetes da linguagem acadêmica, mesmo depois de escrever tantos artigos e orientar tantas dissertações e teses, esbarra em sua preocupação documental.

Mas isso é logo compensado pelo modo afetuoso como narra e descreve os pequenos eventos de sua infância que se tornaram simbólicos em sua vida adulta. Nos momentos de pico, o narrador flagra momentos de lirismo, que são cravados com secura, mas com certa poesia: “Meio dia. O som estridente de uma sirene anunciava que o mercado iria fechar as suas portas”. Os diálogos, que são a parte mais delicada de toda narrativa em prosa, são poucos, pelo que o autor não se aventura nessa seara. Num deles, contudo, inserido em “Was Ist Das?”, a espontaneidade é realmente deliciosa, pois nos traz para perto de nosso falar: “Virgem! E isto é um pedido de desculpas?”, a sua filha pergunta, depois de estranhar o sotaque alemão, em Frankfurt.

São, portanto, de uma tocante delicadeza as partes em que o narrador rememora, numa linguagem cuidadosamente coloquial, isto é, muito bem trabalhada para dar a impressão de coloquialidade, sua iniciação nos prazeres da carne, aproveitando o ensejo para comentar o modo como se dava a iniciação sexual dos meninos de classe média e classe alta, de Aracaju e de quase todas as regiões do Brasil (“Filhos de Ló”). É um momento em que são descritos os cabarés da cidade, bem como o traçado de suas ruas, com seus antigos nomes... Ou seja, tudo é resultado de um minucioso trabalho de pesquisa, ou de rememoração.

As brincadeiras de criança (“Caju, Castanha, Azeite Quente”), seu primeiro filme, no Cine Palace (“Banana Split Combina com Cinema”), a divisão das balas que sua tia trazia quando chegava de viagem (“A Bala Redonda”), são narrativas que fluem e carregam o leitor com sua linguagem leve por entre suas aventuras infantis e adolescentes, na escola e na rua, embora não explorem ou dramatizem conflitos e contradições internas que são tão comuns na vida adolescente. Como bem lembrou o jornalista Rian Santos, numa resenha sobre o livro, trata-se das memórias de um gentleman que não fala mal de ninguém. Mas o cavalheiro Jorge Carvalho alcança também picos melancólicos, como em “A Mão que Amassa a Comida”, um dos mais belos relatos da coletânea. O narrador dedica também um capítulo a sua avó paterna (“Gasosa, Coel e a Velha Maria”), no qual aproveita para falar dos refrigerantes, sucos e guloseimas da Aracaju dos anos 60 e 70 e aponta para um outro aspecto do livro: o humor, que é melhor explorado em “O Tio Prati”.

“O Carvalho”, que dá título ao livro, é, sem dúvida o conto mais importante da coletânea e também o mais denso, tanto psicológica quanto sociologicamente, pois narra a decepção de um jovem negro que, depois de muito batalhar e conseguir entrar no concorrido e tradicional curso de direito da Universidade Federal de Pernambuco, se depara com um professor conservador e racista que aponta sua falta de estirpe, pela sua “tez”, como um defeito: “Carvalho pouco frondoso”. Aqui, o narrador buscou distanciar-se tanto quanto pôde de sua experiência pessoal, que também foi marcada por uma série de preconceitos, tanto por ser nordestino, sobretudo na época em que morava em São Paulo, quanto por ser negro, no Brasil ou na Alemanha. Mas o narrador não adentra nessa floresta escura. Prefere direcionar seus spots de luz para os momentos mais amenos e dotados de uma certa comicidade, embora, nessa segunda parte do livro, ao explorar anedotas, figuras e histórias do passado, sua ironia política não escape aos leitores mais atentos.

Em “A Rolha”, que também narra um episódio constrangedor no qual a personagem, alagoana, depois de conseguir ascender financeiramente e casar com uma mulher de “boa família”, se confronta, de modo cruel, com sua falta de modos e de experiência para frequentar ambientes mais finos no dia de sua lua de mel. A crueldade do mundo dos ricos, o peso de sua classe social, tudo isso fica à disposição para o leitor tirar suas próprias conclusões.

“Serpente Preguiçosa”, “O Juri”, “Bife a Cavalo”, “A Ata”, “A Lista de Totonho” e “O Depoente” compõem um conjunto de relatos ambientados em Sergipe e na Bahia no período do estado novo e da ditadura militar. Nesses contos o narrador está bem mais à vontade para criar e recriar situações anedóticas de um Nordeste romanesco e peculiar. Personagens como Tonico e Totonho crescem e ganham uma autonomia visível perante os outros. Caso houvesse um elemento de tensão em tais relatos, eles seriam as sementes vivas para futuros romances históricos do autor. Talvez essa seja a grande pista do livro: apontar para caminhos fictícios que o autor timidamente iniciou. Se foi intencional, acertou em cheio.

O Carvalho, assim, é um livro que merece ser lido pelo bom texto que tem, pela importância e conhecimento histórico do autor e pelo seu caráter documental, sendo uma leitura fundamental para quem quiser conhecer de perto um pouco da cultura de Sergipe, de modo geral, e de Aracaju, de modo particular.

Luiz Eduardo Oliveira

Professor do Departamento de Letras Estrangeiras (DLES)


Atualizado em: Seg, 09 de novembro de 2020, 13:56
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