Professor do Departamento de Letras Estrangeiras lança livro “O mito de Inglaterra”
Resultado de dois anos intensos de pesquisa, o livro “O Mito de Inglaterra: anglofilia e anglofobia em Portugal (1386-1986)”, do professor Luiz Eduardo Oliveira, do Departamento de Letras Estrangeiras da UFS, será lançado no próximo dia 9 de dezembro, às 18h, no Museu da Gente Sergipana.
O objetivo da obra, publicada pela editora portuguesa Gradiva, é “apreender, nos discursos que ‘narram’ Portugal na longa duração de sua história, os momentos de tensão, ambiguidade e oscilação das representações anglofóbica e anglófila da Inglaterra e do povo inglês, tomando como base as relações político-diplomáticas, dinásticas e culturais entre os dois países”.
Em entrevista ao PortalUFS, Luiz Eduardo falou um pouco sobre o livro:
Quando começou e o que o levou a escrever este trabalho?
A ideia deste livro foi-me sugerida pelo professor José Eduardo Franco, à época supervisor do meu estágio pós-doutoral realizado no Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre março de 2011 e março de 2012. Numa de nossas primeiras conversas para desenvolvimento da pesquisa “Da Anglofobia à Anglofilia: as letras inglesas e a intelectualidade luso-brasileira (1750-1873)”, ele me propôs que eu escrevesse um livro ensaístico sobre o mito da Inglaterra de 1386 a 1986, desafio que aceitei inicialmente com certa apreensão. Tendo aceitado a proposta, iniciei uma série de leituras e pesquisas que não tiveram intervalo nem mesmo nos finais de semana. Como resultado desse exaustivo trabalho de mais de dois anos, saiu este livro.
O que significa este recorte de 1386-1986?
Foram demarcados dois limites cronológicos significativos: 1386, ano em que foi firmado o Tratado de Windsor, que preparou o momento para a união dinástica com a Inglaterra e a legitimação da Casa de Avis, e 1986, ano em que Portugal entra definitivamente para a Comunidade Econômica Europeia, para onde foram transferidas as esperanças de prosperidade e, com elas, o mito do Quinto Império, como uma forma de compensação da perda das colônias africanas, sendo-lhe oferecido o portal de entrada na Europa “civilizada” e “polida”, algo tão almejado por Pombal, já no século XVIII, bem como um novo meio de afirmar-se de maneira intercontinental: a lusofonia, daí o mapeamento e o estudo linguístico da chamada Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP)”.
Há pontes que podem ser feitas com a história do Brasil?
Muitas. Há tópicos inteiros com relação ao Brasil, sobretudo durante a governação pombalina e depois da vinda da família real para o Rio de Janeiro, em 1808. O Brasil é parte indissociável da história de Portugal mesmo depois de sua independência, motivo pelo qual muitas referencias são feitas no decorrer das 457 páginas do livro.
Quais as conclusões mais relevantes que você apontou neste estudo?
O mito da Inglaterra, em Portugal, é um fenômeno histórico cujas implicações políticas, econômicas e culturais marcaram o país desde o momento da fundação de sua nacionalidade, consolidando-se com o Tratado de Windsor, de 1386, e que se manteve durante seiscentos anos, quando foi esvaziado do seu conteúdo político e econômico, em 1986, com o ingresso de Portugal na Comunidade Econômica Europeia. Esse mito deu suporte à inserção de Portugal numa Europa cristã que estava em guerra contra o elemento muçulmano, bem como para a construção política e jurídica do Estado-Nação português e depois da identidade nacional portuguesa, constituindo-se discursivamente ora em seus aspectos positivos, como uma anglofilia, como a que preponderou em seu primeiro momento, que se estende de 1386 a 1580, ora em seus aspectos negativos, como uma anglofobia que marcou o longo período que vai desde 1640 até 1890.
Em anos mais recentes, como esse mito se apresenta?
Durante o século XX, assistimos à reconfiguração do mito, que gradualmente vai perdendo seu conteúdo político-econômico, daí a sua – também gradual – pouca relevância nas práticas culturais cotidianas, até 1986, quando o Reino Unido já não pode manter relações privilegiadas com Portugal sem ferir o princípio da multilateralidade das relações político-diplomáticas dos países membros da Comunidade e depois da União Europeia. Sua dimensão cultural, no entanto, se mantém ativa, seja positivamente, como no caso da anglofilia literária dos escritores, jornalistas, estudantes, professores e demais profissionais das letras, para não falar do cinema e do rock, seja negativamente, como no caso da anglofobia política e dos movimentos antiimperialistas. De qualquer forma, em nenhum dos dois casos o mito da Inglaterra tem o poder que costumava ter de afetar a vida e o imaginário dos portugueses.
Como se deu o financiamento da publicação?
Parte dos gastos com a publicação do livro foi paga pelo Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias (CLEPUL) da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, através da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT); parte pelo CNPq, através do Edital Universal 2012, e parte por mim mesmo, uma vez que não havia rubrica, nos recursos e editais institucionais disponíveis, para financiamento de publicação internacional em livro, embora haja apoio financeiro para a publicação de artigos científicos, através do pagamento das taxas.
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Currículo
Luiz Eduardo Oliveira é licenciado em Letras Português-Inglês pela Universidade Federal de Sergipe (1990), onde também se bacharelou em Direito (1997), e professor associado do Departamento de Letras Estrangeiras (DLES) e do Núcleo de Pós-Graduação em Educação (NPGED).
Mestre em Teoria e História Literária na Universidade Estadual de Campinas (1999), doutorado em História da Educação na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2006) e pós-doutorado em Literatura Comparada pela Universidade de Lisboa (2011).
Líder do grupo de investigação do Núcleo de Estudos de Cultura da UFS (UFS/CNPq), é autor de Gramatização e Escolarização: Para uma História do Ensino de Línguas: Suas implicações na Educação Brasileira e co-autor dos livros O ensino e a Pesquisa em História da Educação; Desafios da Formação de Professores para o Século XXI: O que deve ser ensinado? O que é aprendido?; e Literatura & Ensino.
Atualmente é coordenador do Departamento de Licenciaturas e Bacharelados (Delib) da Pró-Reitoria de Gradução (Prograd).
Ascom
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