Há histórias que começam muito antes de ocupar um cargo, entrar em uma sala de aula ou vestir um uniforme de trabalho. Histórias que começam nas casas das mães e avós, nos desafios do cotidiano, nas barreiras silenciosas que muitas vezes acompanham a trajetória das mulheres. No Dia Internacional da Mulher, essas histórias se encontram dentro da Universidade Federal de Sergipe (UFS), em diferentes espaços, funções e gerações.
Na gestão universitária, nas salas de aula, nos laboratórios ou nos corredores do campus, mulheres seguem construindo caminhos que, por muito tempo, lhes foram negados ou dificultados. E cada trajetória carrega não apenas conquistas individuais, mas também marcas de uma luta coletiva por reconhecimento, respeito e igualdade.
Para a vice-reitora da UFS, professora Silvana Bretas, a história das mulheres é marcada por um esforço constante para provar aquilo que nunca deveria ser colocado em dúvida: sua capacidade.
“É uma história que sempre exigiu muitos esforços. Além dos esforços pessoais que nós dedicamos a qualquer coisa que fazemos — desde cuidar da casa, dos filhos, até construir uma carreira — existe a necessidade de comprovar, dia após dia, que somos capazes e intelectualmente tão preparadas quanto qualquer colega homem que está ao nosso lado”, afirma.

Segundo a vice-reitora, o Dia Internacional da Mulher também é um momento de reflexão sobre desafios ainda presentes na sociedade, especialmente relacionados à violência de gênero. Na universidade, iniciativas de conscientização e enfrentamento dessas problemáticas têm mobilizado diferentes setores institucionais.
“Esse ano, mais do que nunca, precisamos reforçar essa luta. A violência contra mulheres e meninas ainda é uma realidade muito dura. Por isso, a universidade também se engaja em campanhas importantes, como a mobilização contra a gravidez na infância, em parceria com instituições da sociedade civil e órgãos públicos”, explica.
Se para muitas mulheres o caminho profissional exige resistência, para outras ele também carrega o peso de desigualdades históricas. A pró-reitora de Equidade Racial e Ações Afirmativas da UFS (Proera/UFS), professora Gicélia Mendes, lembra que ocupar espaços de liderança dentro da universidade também significa carregar consigo histórias que vieram antes.
“Ser uma mulher negra na universidade, hoje em um cargo de gestão, tem um significado muito grande. Eu fui a primeira pessoa da minha família a entrar na universidade. Quando olho para essa trajetória, penso também nas mulheres que vieram antes de mim, como minha mãe, que não tiveram essa oportunidade”, relata.

A pró-reitora destaca que sua presença na gestão representa não apenas uma conquista pessoal, mas um compromisso com as próximas gerações.
“Quando eu falo, muitas vezes não estou falando só de mim. Estou falando de tantas mulheres que enfrentaram dificuldades para chegar até aqui. A minha responsabilidade é trabalhar para que outras meninas e mulheres não precisem passar pelos mesmos obstáculos que nós enfrentamos”, ressalta.
A reflexão sobre os desafios enfrentados pelas mulheres também passa pela necessidade de ampliar a inclusão em diferentes dimensões. Para a pró-reitora de Acessibilidade e Ações Inclusivas (Proaai/UFS), Marília Cavalcante, a construção de uma universidade mais justa exige olhar para múltiplas realidades.
“O Dia Internacional da Mulher é, antes de tudo, um dia de reflexão. As mulheres ainda enfrentam uma jornada dupla ou tripla para conseguir desempenhar suas funções profissionais e, ao mesmo tempo, manter responsabilidades familiares. Quando falamos de mulheres com deficiência, essas dificuldades se tornam ainda maiores”, afirma.

Segundo ela, garantir acessibilidade significa também garantir oportunidades de autonomia e participação social.
“A acessibilidade é muito mais do que permitir o ir e vir. É garantir que as pessoas possam estudar, trabalhar, construir suas trajetórias com autonomia e dignidade”, explica.
As histórias que marcam o cotidiano da universidade também são construídas por trabalhadoras que muitas vezes enfrentaram longos caminhos até ocupar seus espaços. É o caso de Viviane Dias, que atua como segurança na UFS.
Antes de vestir o uniforme da segurança universitária, Viviane trabalhou por anos na limpeza da instituição. A mudança de função, no entanto, não veio sem desafios.
“Minha trajetória até chegar aqui não foi fácil. Eu precisei fazer cursos, me preparar e, mesmo assim, enfrentei impedimentos porque muitas pessoas achavam que esse espaço não era para mulher”, conta.

Hoje, ela acredita que a presença feminina na segurança da universidade faz diferença, especialmente no atendimento à comunidade acadêmica.
“Muitas vezes as mulheres se sentem mais confortáveis sendo atendidas por uma segurança feminina. Por isso é importante que a gente também ocupe esses espaços”, afirma.
Entre os estudantes, a percepção também é de que ampliar a presença feminina em diferentes áreas do conhecimento é fundamental para transformar a sociedade. A estudante de Química Taysa Conde destaca que, mesmo em áreas historicamente dominadas por homens, as mulheres vêm conquistando cada vez mais espaço.
“Na ciência, durante muito tempo, as mulheres foram deixadas de lado. Hoje a gente vê isso mudando, e é muito importante ter essa representatividade, principalmente para abrir caminhos para outras meninas que também querem seguir nessas áreas”, afirma.

Como mulher negra e estudante da universidade, ela também ressalta o impacto que a presença feminina tem na construção de novas perspectivas.
“Quando a gente se vê representada, percebe que também pode ocupar esses espaços e alcançar posições de liderança. Isso nos dá mais confiança para seguir em frente”, completa.
Mais do que uma data comemorativa, o Dia Internacional da Mulher é, portanto, um convite à reflexão sobre caminhos já percorridos e aqueles que ainda precisam ser abertos. Dentro da UFS, as histórias dessas mulheres revelam que cada conquista individual também representa um avanço coletivo construído diariamente entre desafios, resistências e a certeza de que ainda há muito a transformar.
Brunna Martins - Ascom UFS
