Seg, 26 de setembro de 2011, 14:25

A complexa discussão sobre secularização - II
A complexa discussão sobre secularização - II

Saber Ciência / Marcio Gimenes de Paula


08/06/2010



A fé cristã sempre necessitou, nos seus primórdios, de todo o instrumental grego para ser transmitida aos seus contemporâneos. Se a mesma tivesse permanecido tal como a conceberam alguns antigos judeus, ela certamente teria morrido em algum lugar isolado da Palestina e não teria penetrado o mundo ocidental. São Paulo, o principal teólogo do cristianismo nascente, é a figura mais exemplar nesse sentido: judeu, com cidadania romana, mentalidade cosmopolita, conhecedor de alguns dos temas filosofia de sua época.

Um tema clássico também costumeiramente ressaltado quando se trata de secularização é o da Reforma Protestante. Tal evento apontaria, em si mesmo, o germe da autonomia e da democracia para os séculos seguintes. Contudo, aqui deve-se ter cuidado. Pois se é certo que a Reforma representou avanço, é igualmente certo que ela não é um milagre, mas antes foi gerada, inclusive, no período medieval. Os reformadores, a rigor, eram homens com um modo medieval de agir e pensar. Tal coisa não se constitui num demérito mas, ao contrário, ressalta, talvez, uma característica pouca enfatizada do medieval. Um dos teóricos do protestantismo, Ernst Troeltsch, afirma que tal movimento sempre flerta entre alguns retrocessos medievais e a modernidade. Por isso, a rigor, o protestantismo nunca representou uma plena liberdade para o indivíduo, pois, como toda a instituição, ele necessitava de produzir suas leis e regular a vida dos seus fiéis. Nesse sentido, podemos notar que tanto a Genebra de Calvino, com um governo teocrático, como as posições de Lutero acerca da ciência moderna são, na melhor das hipóteses, tímidas. Todavia, a Reforma representa, para além do fato religioso, uma quebra da autoridade política do papado e uma mudança no mapa geopolítico europeu. Além disso, sua concepção de livre-exame e de consciência do indivíduo foi profundamente importante para a produção da autonomia do sujeito e para a questão da interioridade, temas que serão sobejamente debatidos pela filosofia moderna. Por isso é, no entender de Weber, o calvinismo, dada a sua racionalidade, seria uma espécie de sala de espera da descrença, ou seja, depois de explicar todos os conteúdos da fé, talvez seja possível até mesmo dispensar a idéia do divino.

Nesse sentido, a discussão da temática da secularização é profundamente importante para a ética e para a política nos séculos XIX e XX.

Temas como a sociedade administrada, ação racional com respeito a fins, que serão tão claramente explorados pelos filósofos de Frankfurt, já encontram seu nascedouro na obra de Weber. Além disso, a discussão sobre a técnica, igualmente explorada por Benjamin e por Heidegger, é igualmente oriunda de um debate sobre a secularização.

Muitos dissertam hoje sobre uma sociedade pós-secular ou novamente encantada, como se fosse possível delimitar onde acaba a secularização e onde começa o encantamento. Talvez a melhor pista seja perceber a secularização – e o encantamento – como processos múltiplos e ainda abertos, como faces da mesma moeda e da mesma sociedade.


Currículo
Professor do Departamento de Filosofia e membro do Grupo de Pesquisa em Ciências da Religião da UFS


Atualizado em: Seg, 26 de setembro de 2011, 14:26
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