Seg, 26 de setembro de 2011, 14:29

A complexa discussão sobre secularização - I
A complexa discussão sobre secularização - I

Saber Ciência / Marcio Gimenes de Paula


08/06/2010


Um dos temas capitais do pensamento moderno e contemporâneo tem sido a discussão acerca da secularização. A origem do termo secularização está primeiramente ligada ao sentido eclesiástico e explicita, em si mesmo, a diferença existe entre o presente século, isto é, o tempo passageiro dos homens e a eternidade, que se relaciona com o divino. Tal distinção já surge, a rigor, na filosofia de Santo Agostinho, com sua célebre distinção entre a Cidade de Deus e a Cidade dos homens.


Para o bispo de Hipona, os homens são passageiros aqui na terra e só completarão plenamente a sua cidadania nos céus, visto que pertencem a ele. Note-se a forte influência platônica: no mundo dos homens existe a aparência e o efêmero, no mundo divino, a essência e o eterno. Por isso, sempre que se disserta acerca da secularização, aborda-se uma relação entre céus e terra. A conseqüência de tal atitude seria um desprezo dos homens pela política e pela sua sociedade. Afinal, se sua cidadania está reservada para os céus, de que vale produzir algo para ser vivido nesse mundo passageiro?
Contudo, ao contrário do que talvez se possa imaginar, ou do que uma dada tradição nos legou, a secularização, mesmo quando vista como descristianização ou dessacralização não implica, necessariamente, em descrença ou ateísmo. Afinal, se seguirmos, por exemplo, as suspeitas de Max Weber, teórico do desencantamento do mundo e da secularização, veremos claramente as diferenças entre profeta, sacerdote, carisma, carisma domesticado, religião racional e etc. O que tudo isso representa?
Sem entrar na análise minuciosa de cada um desses temas, podemos afirmar que a própria religião cristã traz, no seu bojo, os elementos da secularização. Por exemplo, se nas antigas religiões pagãs existia o sacrifício de primogênitos, estes, de forma gradativa, vão sendo substituídos pelo sacrifício de pequenos animais. Com o passar dos anos e com o estabelecimento de uma civilização em diferentes bases, a Igreja nascente absorve a doutrina da Eucaristia, onde o filho de Deus é sacrificado por amor ao mundo. Note-se que, a partir de agora, o sangue e o corpo de Cristo são tomados como símbolo, como memorial e até mesmo como presença real. Contudo, mesmo para aqueles que tomam o corpo de Cristo como presença real, não ocorre o sacrifício real e concreto de uma pessoa, salvo na crença ou na mente do fiel. O que prova tal coisa? Prova que determinadas crenças passaram por um processo de secularização e de racionalidade.
O próprio processo da encarnação de Cristo, aquilo que os teólogos chamarão de kênosis (rebaixamento) não deixa de ser um outro lado do processo de secularização. Um Deus que vai ao encontro dos homens e estabelece com eles pontes e morada, rompe com todo um círculo de sacralidade de algo que somente se podia exprimir através do medo, da magia e do maravilhoso. Desse modo, não se pode, portanto, fazer uma equivalência absoluta entre secularização e descrença. A secularização se constitui antes no processo de racionalização dos conteúdos da fé.


Currículo
Professor do Departamento de Filosofia e membro do Grupo de Pesquisa em Ciências da Religião da UFS.


Atualizado em: Seg, 26 de setembro de 2011, 14:30
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