Ter, 27 de setembro de 2011, 11:46

Avatar – um novo baile de máscara
Avatar – um novo baile de máscara

Saber Ciência / Maria Clara Silva Caldas


09/06/2010


Segundo o dicionário da língua portuguesa, avatar, no hinduísmo, significa encarnação (literalmente descida) de uma divindade sob a forma de um homem ou de um animal. A popularização dessa palavra entre os meios de comunicação e informática configura outro conceito a ela. O termo se associa às figuras que são criadas a imagem semelhança do seu usuário, isto é, a representação gráfica de um utilizador em realidade virtual (Wikipédia). Seria a identidade ciberespacial do seu usuário. Com ela, o sujeito transita de acordo com sua vontade e necessidade no espaço comunicacional que descarta a presença física do homem. O avatar é inserido em um território de anônimo. Há um sujeito por traz do avatar e por, justamente, estar mascarado possui um grande potencial revelador.


Para Nietzsche, “tudo que é profundo ama a máscara, todo espírito profundo necessita de uma máscara, em torno do espírito profundo, cresce e desabrocha sem cessar uma máscara. E ele conclui que só progredimos “mascarados” (Nietzsche, citado por Mafessoli, 1980, p. 124). A máscara revela o que lhe é de mais oculto. Neto (Psicoterapia em busca de Dionísio: Nietzsche visita Freud, 1994, p. 73) define máscaras como “facetas que compõem uma subjetividade.”. A máscara protege o indivíduo de qualquer julgamento moral. Nessa condição, o mascarado pode revelar, para ele mesmo e para o público, características antes desconhecidas, manifestar qualquer comportamento não legitimado pela sociedade.
O avatar, como Machado (Regimes de Imersão e Modos de Agenciamento, 2002) aponta, é uma espécie de máscara. O utilizador pode compor diversas identidades com um simples ato de agenciá-lo como um sujeito que assume novos papéis pondo ou tirando uma máscara. O avatar é, então, o representante de um sujeito anônimo. Na sua construção, o sujeito encarna-o e, em seguida, entra em ação na realidade virtual. Como seu representante, o avatar pode de revelar e explorar do sujeito diversas faces da sua verdade. Turkle afirma que graças ao anonimato, as pessoas inseridas nesses ambientes possuem a chance de explorar múltiplas personalidades, jogar com sua própria identidade e tentar outras, vivenciando diferentes aspectos subjetivos.
O eu - oculto real, presentificado no mundo virtual, possibilita ao indivíduo novas formas de experienciar assim um reconhecimento de si. O eu não manifestado no mundo real é expurgado dentro de um evento de natureza virtual. A manifestação do eu antes off-line, agora, online possibilita a vivência de um leque de sensações reais. Possibilidade que lhe capacita em realizar aquilo que no mundo real lhe é ou lhe parece ser impossível. Aqui a culpabilização sofrida pelo sujeito devido à realização de algum desejo não legitimado pela sociedade é amenizada pela não revelação da sua identidade.
Se por um lado há o descarte da identidade e a negação de qualquer ordem social, por outro, há uma organização, um sentido existencial depositado no avatar pelo seu usuário. O desejo de vivência, de realização toma corpo através do ritual de passagem que o avatar possibilita. Não tem como distinguir o real do virtual, o homem de carne e osso do seu avatar. E para aquele que afirma “o meu avatar não tem nada a ver comigo”, digo-lhe o avatar nunca é um mero enfeite. Qualquer imagem utilizada te representa de uma forma ou de outra. Em seu simples processo de customização já inicia essa relação interativa entre o usuário e sua criação, mesmo para aqueles que não participaram da construção do seu avatar e já o encontraram pronto para ser utilizado. Os pronomes possessivos “meu” e “seu” denotam certa peculiaridade e confirmam a existência da aproximação entre o usuário e o seu agente virtual. Não importa se ele foi ou não criado por você, se ele possui ou não suas características, no final você o encarna e dá vida a ele.
O usuário se funde à sua representação amalgamando o absurdo do real com o virtual, seu outro mundo equivalente. O ajuntamento só é possível pelo processo de identificação que ocorre entre o sujeito real e o virtual. Uma identificação entre o sujeito com ele mesmo, uma espécie de auto-referência. A auto-referencia ocorre não só pelas atribuições, ao avatar, de características próprias do usuário, mas também pela sensorialidade que o mundo digital oferece. Ao sujeito, a sua atuação no mundo virtual não é perceptível como ilusória, devido à grande força lúdica do homem, se caracterizando como homo ludens. O avatar entra em ação de acordo com a escolha e decisão do seu utilizador. É como se ele mesmo estivesse ali atuando, dentro da outra dimensão. O “como se” reabre uma multiplicidade de sentidos virtuais possibilitando novos canais de expressão e de invenção do si mesmo.
Com o avatar encarnado fica difícil resistir ao fascínio que ele provoca. É como resistir ao feitiço gerado pelas inúmeras possibilidades de vivência e fantasia presentes em um baile de máscara. E em um baile de máscaras, quantos somos? Somos diversos e impostores. Não por sermos falsos, mas por sermos o visível e o secreto, por sermos nós mesmos e sermos outros. Assim como no ciberespaço, as verdadeiras faces não estão ocultadas, mas sim reveladas por um avatar.


Currículo
Estudante do 1º. Período de Psicologia da UFS. O presente artigo foi escrito como exigência parcial para a disciplina “Tópicos Especiais em Cinema”, ministrada em 2009.2 pela Profa. Dra. Lilian França.


Atualizado em: Ter, 27 de setembro de 2011, 11:47
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