Ter, 27 de setembro de 2011, 12:10

Narrativas e realidade
Narrativas e realidade

Saber Ciência / Elen Naiara Batista Madeiro



09/06/2010


A concepção de “imagem” como mediadora da relação homem-mundo vem mudando desde o advento das chamadas imagens técnicas, aquelas que são produzidas por aparelhos. Esses aparelhos, ao produzirem imagens do mundo, se colocam entre o olho do homem e a realidade (Kerr, Michael Abrantes. Filme e memória: devires das imagens de arquivo, 2008). A imagem toma o lugar da imaginação e as distâncias entre o homem e as coisas que ele vê entram em extinção graças ao que Virilio chama de “logística da percepção” (Virilio, Paul. A máquina de visão. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 2002). Os aparelhos produtores e modificadores de imagens acabam por distanciá-las da realidade que elas se propunham representar.


A mudança na concepção de “imagem” transforma a idéia que se tinha do cinema como vinculado à verdade e à realidade, principalmente pela disseminação dos efeitos especiais. Com eles, a linha que separa ficção e realidade vem se tornando cada vez mais imperceptível. Muitos cineastas, hoje em dia, se utilizam dos efeitos especiais para ir além do real “e criar outra realidade tão real quanto àquela que o cinema tradicional e o cinema de vanguarda representavam” (Duvoisin, Aline Almeida. Os Efeitos Especiais e As Aproximações Entre Cinema e Televisão, 2008).
Para Ismail Xavier, esse cinema que questiona convicções e promove uma desestabilização de oposições pré-fixadas, como falso-verdadeiro, realidade-ficção é o cinema que faz pensar. Ainda segundo ele, o maniqueísmo contido nesses pares de oposições retrata a ilusão de realidades estáveis quando uma forma não-ilusória de trabalhar com esses termos seria pensar as formas pelas quais uma se transforma na outra. Com isso, a função educativa do cinema não estaria atrelada, simplesmente, ao fato de transmitir conteúdos, mas sim à postura de provocar reflexões (Entrevista com Ismail Xavier, Um Cinema que “Educa” é um Cinema que (nos) Faz Pensar, 2008).
Ao pensarmos o cinema como veículo que provoca reflexões, deparamo-nos com a temática da recepção das imagens. Não devemos inferir que há uma maneira correta e exclusiva de se relacionar com essas imagens e narrativas, a postura que adotamos em nossa forma de interagir (com as imagens e narrativas) está relacionada com a nossa formação pessoal e inserção social. Assim, a figura de um especialista que conhece a forma correta de ler os filmes é uma figura como que obtusa, avalia Ismail, na mesma entrevista acima citada.
A lógica que permeia a idéia de especialista é a mesma que encontramos em narrativas que propõem uma verdade a ser lida, encontrada, descoberta. Veículos que difundem esse modelo de narrativa provocam uma crise da representação na medida em que contribuem para o afastamento dos antigos modos de representação. Esse afastamento é provocado pela acomodação do olhar promovida por esse tipo de narrativa, que desconsidera o fato de que a aquisição da imagem não é instantânea, mas consolidada (Virilio, Paul. A máquina de visão. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 2002).
De posse dessas informações, podemos refletir acerca dos modos de experienciar a realidade, seja através de nossos próprios olhos ou através de olhos outros. Pensar as narrativas cinematográficas como uma dentre muitas maneiras de se produzir concepções de mundo. Cabe ao cineasta a escolha por um cinema que produz ou um outro que reproduz. E cabe ao telespectador a postura de aceitar construtos a ele transmitido ou a tarefa de construir seu próprio mundo.


Currículo
Estudante de Psicologia, 8º período. Bolsista do Programa de Iniciação Científica Voluntária da UFS. O presente artigo foi escrito como exigência parcial para a disciplina “Tópicos Especiais em Cinema”, ministrada em 2009.2 pela Profa. Dra. Lilian França.


Atualizado em: Ter, 27 de setembro de 2011, 12:10
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