Saber Ciência / Elen Naiara Batista Madeiro
09/06/2010
A concepção de “imagem” como mediadora da relação homem-mundo vem mudando desde o advento das chamadas imagens técnicas, aquelas que são produzidas por aparelhos. Esses aparelhos, ao produzirem imagens do mundo, se colocam entre o olho do homem e a realidade (Kerr, Michael Abrantes. Filme e memória: devires das imagens de arquivo, 2008). A imagem toma o lugar da imaginação e as distâncias entre o homem e as coisas que ele vê entram em extinção graças ao que Virilio chama de “logística da percepção” (Virilio, Paul. A máquina de visão. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 2002). Os aparelhos produtores e modificadores de imagens acabam por distanciá-las da realidade que elas se propunham representar.
Para Ismail Xavier, esse cinema que questiona convicções e promove uma desestabilização de oposições pré-fixadas, como falso-verdadeiro, realidade-ficção é o cinema que faz pensar. Ainda segundo ele, o maniqueísmo contido nesses pares de oposições retrata a ilusão de realidades estáveis quando uma forma não-ilusória de trabalhar com esses termos seria pensar as formas pelas quais uma se transforma na outra. Com isso, a função educativa do cinema não estaria atrelada, simplesmente, ao fato de transmitir conteúdos, mas sim à postura de provocar reflexões (Entrevista com Ismail Xavier, Um Cinema que “Educa” é um Cinema que (nos) Faz Pensar, 2008).
Ao pensarmos o cinema como veículo que provoca reflexões, deparamo-nos com a temática da recepção das imagens. Não devemos inferir que há uma maneira correta e exclusiva de se relacionar com essas imagens e narrativas, a postura que adotamos em nossa forma de interagir (com as imagens e narrativas) está relacionada com a nossa formação pessoal e inserção social. Assim, a figura de um especialista que conhece a forma correta de ler os filmes é uma figura como que obtusa, avalia Ismail, na mesma entrevista acima citada.
A lógica que permeia a idéia de especialista é a mesma que encontramos em narrativas que propõem uma verdade a ser lida, encontrada, descoberta. Veículos que difundem esse modelo de narrativa provocam uma crise da representação na medida em que contribuem para o afastamento dos antigos modos de representação. Esse afastamento é provocado pela acomodação do olhar promovida por esse tipo de narrativa, que desconsidera o fato de que a aquisição da imagem não é instantânea, mas consolidada (Virilio, Paul. A máquina de visão. Rio de Janeiro: José Olympio editora, 2002).
De posse dessas informações, podemos refletir acerca dos modos de experienciar a realidade, seja através de nossos próprios olhos ou através de olhos outros. Pensar as narrativas cinematográficas como uma dentre muitas maneiras de se produzir concepções de mundo. Cabe ao cineasta a escolha por um cinema que produz ou um outro que reproduz. E cabe ao telespectador a postura de aceitar construtos a ele transmitido ou a tarefa de construir seu próprio mundo.
Estudante de Psicologia, 8º período. Bolsista do Programa de Iniciação Científica Voluntária da UFS. O presente artigo foi escrito como exigência parcial para a disciplina “Tópicos Especiais em Cinema”, ministrada em 2009.2 pela Profa. Dra. Lilian França.
