Ter, 20 de outubro de 2026, 15:02

UFS e MinC criam incubadora para fortalecer cultura popular em Sergipe
Projeto une estudantes e saberes tradicionais para apoiar organizações na captação de recursos do Governo
 (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
(Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)

A Universidade Federal de Sergipe (UFS), em parceria com o Ministério da Cultura (MinC) e o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), deu início à implantação de uma incubadora voltada ao fortalecimento das organizações sociais de cultura popular no estado. A ação tem como finalidade ampliar a participação de grupos culturais sergipanos nos editais de fomento do Governo Federal, espaço em que o estado enfrenta dificuldades de atuação há cerca de duas décadas.

A criação da incubadora decorre da identificação, pelo próprio MinC, de uma lacuna no apoio institucional à cultura popular. Nesse cenário, a UFS assume papel estratégico de mapeamento e identificação das especificidades do cenário local. A iniciativa nasceu de um convite intermediado pela coordenadora-geral do Programa Nacional de Comitês de Cultura, Mirella Araújo, que previa a implementação de uma ação de fortalecimento da cultura popular, com um diagnóstico inicial para identificar as principais carências do setor em Sergipe e orientar investimentos por meio dos editais de fomento.

Para Mirella Araújo, a parceria com a universidade é fundamental para ajudar a construir uma incubadora voltada ao fortalecimento das organizações sociais de cultura popular no estado de Sergipe. A gestora explica que a iniciativa se baseia em uma união entre educação e cultura, visando valorizar e reconhecer mestres, mestras, culturas indígenas, quilombolas e populares.


Coordenadora-geral do Programa Nacional de Comitês de Cultura, Mirella Araújo.  (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
Coordenadora-geral do Programa Nacional de Comitês de Cultura, Mirella Araújo. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)

“Primeiro foi feito uma análise dos bancos de dados já existentes, do mapa da cultura, de outras fontes estaduais, e dos editais de mestres e mestras tanto do estado quanto da universidade. Em seguida, a equipe visitou as organizações sociais, coletivos, instituições e grupos que já atuam em rede, realizando um diagnóstico para identificar necessidades e a maturidade institucional de cada um. A partir das demandas levantadas nesse mapeamento e diagnóstico, iniciou o processo de formação voltado ao fortalecimento dessas instituições e ao acesso às políticas públicas de cultura e sociais”, detalha.

Docente do curso de Museologia do Campus Laranjeiras, a Profª Drª Ana Karina Calmon foi membro da Comissão Especial de Seleção do Edital Modernização de Museus do Ministério da Cultura em 2009 e hoje lidera o projeto encabeçado pela Universidade. Após receber um convite do MinC por conta de suas atuações antigas, a professora iniciou uma articulação para identificar as principais carências da cultura popular sergipana para os investimentos nos editais de fomento do MinC.


 Profª Drª Ana Karina Calmon.  (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
Profª Drª Ana Karina Calmon. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)

“O que eu fiz foi ligar os estudantes da Arquitetura, da Museologia e da Arqueologia, que são os três cursos que têm sede lá, à atuação mais forte que a gente tem no campus, que é o Trapiche, um projeto de extensão sempre renovado, em que os estudantes saem para atender a comunidade. A partir dele, a gente fez essa estrutura e eu dei uma esticada de braço para São Cristóvão e trouxe um aluno da Engenharia da Computação, que vai nos auxiliar a compor o banco de dados que a gente vai entregar para o Ministério e para a Universidade, e uma aluna de Turismo, área afim da Museologia. Pensando em articulação política, minha primeira preocupação foi como estabelecer isso para que não seja uma ação que eu deflagre agora e depois acabe, mas que a universidade abrace, para que a gente atue diretamente com essas instâncias políticas.” afirma Ana Karina.

Desde o início, a coordenação buscou garantir a continuidade da ação, de modo que não se encerrasse com a fase inicial. Para isso, a professora Ana Karina convidou Josefa Lisboa, pró-Reitora de Extensão e Cultura da Universidade Federal de Sergipe, para aderir ao projeto. Segundo Josefa, abraçar a incubadora a partir de um grupo com ampla experiência em cultura fortalece sua elaboração, e a boa relação de Ana Karina com o Ministério contribui nesse processo. A articulação envolveu ainda a gestão da UFS e contou com o escritório do MinC como parceiro.


Pró-Reitora de Extensão e Cultura, Josefa Lisboa. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
Pró-Reitora de Extensão e Cultura, Josefa Lisboa. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)

“A criação da incubadora é estratégica, pois há um vazio de busca de apoio do MinC para a cultura popular. Queremos ampliar isso para o estado inteiro, quanto mais sujeitos da cultura popular sergipana vierem para a universidade, se certificarem e conseguirem trabalhar conosco, mais a universidade avança. Passamos a ter mais sujeitos críticos, pensantes na sociedade sergipana. Isso nos fortalece de todas as formas”, reforça.

O grupo liderado por Ana Karina é composto por estudantes de cursos como Arquitetura e Arqueologia, cujos estudantes foram reunidos por meio do Trapiche, projeto de extensão permanente do campus em que discentes realizam atendimentos às comunidades. O grupo, formado majoritariamente por estudantes de Arquitetura, hoje também inclui discentes de Museologia, Engenharia da Computação e Turismo para auxiliar na composição de um banco de dados voltado para o Ministério e a Universidade.

Na avaliação dos estudantes, a participação no projeto favorece a integração entre áreas do conhecimento, amplia a compreensão sobre o patrimônio imaterial, além de aproximar a formação acadêmica das demandas sociais e comunitárias. A graduanda de Arquitetura e Urbanismo do Campus Laranjeiras e integrante do Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo, Alana de Araújo, destaca a ligação do projeto com a implementação da Incubadora.


Os estudantes Alana de Araújo, Monielle Fonseca e Samuel Guimarães. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
Os estudantes Alana de Araújo, Monielle Fonseca e Samuel Guimarães. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)

“O escritório tem o foco em assessoria popular, assessoria técnica. Geralmente a gente já trabalha com comunidades aqui de Sergipe, como a Praia da Fibra, no Bairro Industrial, e a Mucuquinha, que é um quilombo lá em Laranjeiras. A gente também trabalha com a Rede de Assessoria Técnica Popular do Nordeste, e é um trabalho muito importante, trabalhamos com essas comunidades e aí vamos com um novo olhar. A arquitetura fica muito voltada para o patrimônio edificado, onde mexemos muito com o imaterial, é uma visão nova e importante, principalmente na situação do nosso território”, afirma.

O Trapiche, projeto de extensão permanente do Campus Laranjeiras, é a base da atuação estudantil na incubadora. Reunindo discentes de diferentes cursos que realizam atendimentos às comunidades, o grupo atua na articulação cultural e na valorização das tipologias de patrimônio, material e imaterial, em diálogo direto com os territórios. É o que explica a estudante de Museologia Monielle Fonseca, membro do projeto. “A gente tenta trabalhar com essa articulação cultural, as tipologias de patrimônio, seja material e imaterial, e também com a comunidade. Esse movimento social é o que nos mantém ativos enquanto membros, e também o que nos traz o resguardo enquanto futuros profissionais”, afirma.


As estudantes Ana Luísa Gusmão Silva e Isis Milena Santos de Oliveira. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
As estudantes Ana Luísa Gusmão Silva e Isis Milena Santos de Oliveira. (Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
(Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)
(Foto: Jackson Bandeira/Ascom UFS)

A interdisciplinaridade que caracteriza o Trapiche também amplia o horizonte de formação de seus integrantes. Estudante de Engenharia de Computação e membro do grupo, Samuel Guimarães destaca que a iniciativa em parceria com o Ministério da Cultura aproxima sua área de formação das demandas sociais. “Enquanto estudante de Computação, a gente às vezes esquece do quão importante a nossa área pode ser para o avanço da sociedade e de movimentos sociais também. A gente raramente encontra iniciativas que tragam o lado social para a computação. E tanto o Trapiche quanto essa iniciativa têm permitido isso e me feito ver novas possibilidades de atuação que antes eu não enxergava”, diz.

Como parte das ações de valorização dos saberes tradicionais, a UFS encerrou recentemente o período de inscrições do edital de Mestres e Mestras, que permitirá a certificação de novos detentores desses saberes. A expectativa é ampliar a iniciativa para todo o território sergipano, aproximando a universidade dos sujeitos da cultura popular e fortalecendo sua função social e a formação de sujeitos críticos na sociedade.

Giulia Meneses - Ascom UFS


Atualizado em: Ter, 20 de outubro de 2026, 16:02
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