Qua, 23 de dezembro de 2020, 12:27

Colação de grau da 4ª turma de Medicina - campus de Lagarto
Liliádia da Silva Oliveira Barreto
Discurso de Liliádia Barreto durante a solenidade de colação de grau. (foto: Schirlene Reis/Ascom UFS)
Discurso de Liliádia Barreto durante a solenidade de colação de grau. (foto: Schirlene Reis/Ascom UFS)

Senhoras e senhores, autoridades que, na data de hoje, nos prestigiam, familiares que nos assistem pela TV UFS, e caros alunos aqui presentes - futuros médicos.

Inicialmente, deixo registrada minha imensa satisfação de poder compartilhar com vocês este momento, que coroa anos de dedicação e conquistas formuladas, em grande parte, nas cadeiras de nossa querida Instituição de Ensino, a Universidade Federal de Sergipe.

Em decorrência das limitações prescritas pelos protocolos de biossegurança para o enfrentamento da pandemia da covid-19, esta solenidade de colação de grau está sendo realizada de forma remota.

O momento não nos traz unicamente o lamento pelas vítimas que tiveram suas vidas ceifadas. Ele nos obriga ao não compartilhamento da presença de pessoas queridas pelas quais temos grande estima e cujas ausências nos são muito caras. Estamos aqui compartilhando o vazio e o silêncio do auditório, e acredito que, ao invés disto, gostaríamos de compartilhar nossos sentimentos festivos que a ocasião requer: os brados retumbantes das pessoas queridas remotamente se somam para esta comemoração. Jamais perderemos a fé na solidariedade humana e a esperança de que “dias melhores virão”.

Espero que as memórias desta cerimônia de formatura os façam lembrar, no futuro, que o sonho não acabou; ele espera “dias melhores” nos quais a vida será homenageada como a mais nobre e importante razão de nossos mais profundos desejos comemorativos.

Queridos ex-alunos de Medicina, sintam a saudação pessoal de seus queridos pares. Eles estão vivos e, ainda que de forma virtual, efusivamente, estão transmitindo-lhes o título que honrosamente conquistaram: o diploma de médico. Pediria agora uma salva de palmas pelas vidas que aqui registram o enfrentamento diário da contaminação, que com bravura enfrentam as perdas, se colocando diante dos medos e ameaças com disponibilidade para viver.

Estou certa de que os corações dos familiares e dos amigos de cada um de vocês estão tomados de orgulho e de felicidade, e encontrarão um modo pertinente, para o momento, de expressar e de extravasar tais emoções.

Assim, somando-me a estes sentimentos, expresso o orgulho e a honra em saudar os novos médicos, que tiveram a preocupação em acelerar o processo de formação para contribuir com a sociedade num dos momentos mais difíceis da humanidade e, assim, colocaram-se na linha de frente do combate aos efeitos do novo coronavírus. Evidencio que é de momentos extremos que podemos extrair os mais firmes e profícuos ensinamentos, que os guiarão ao longo de suas vidas profissionais.

Inevitavelmente, para um discurso de colação de grau de uma turma de novos médicos, em meio ao momento que vivenciamos, a tônica da minha fala perpassa em evidenciar a importância desta profissão, buscando promover reflexões sobre suas atuações enquanto profissionais no seio da sociedade.

De certo, quando realizam a travessia do papel de estudantes ao de profissionais, quando deixam de ser espectadores das dinâmicas hospitalares e passam a ser, efetivamente, cuidadores de vidas humanas, o que, de imediato, se vislumbra é a oportunidade de atender necessidades de saúde que estão sem respostas, na proatividade da profissão médica somar esforços que colaborem para dar continuidade à vida humana e elevá-la em qualidade garantida pelo desempenho da competência técnica assistencial humanizada de profissionais que colaboram para o bem de todos com ciência e sensibilidade.

Para nos ajudar numa breve reflexão, compartilho com vocês o relato de um grego. Não do pai da medicina, mas do historiador grego Tucídides, escrito na obra “Guerra do Peloponeso”, datado do século V a.C., que vivenciou, sobreviveu e nos deixou uma rica descrição de uma grave doença, à época, chamada de “Peste de Atenas”.

Segundo este relato, entre os anos de 430 e 429 a.C., uma doença assolou Atenas, espalhando-se rapidamente, configurando-se como uma epidemia. A doença permaneceu por anos sem confirmação de qual teria sido o seu agente causador, tendo sido definida por pesquisadores atenienses como “febre tifoide”, apenas em 2006.

Portanto, essa é a primeira reflexão que lhes proponho, sobre a importância de publicar o conhecimento adquirido, tanto em decorrência da prática profissional, como por meio dos estudos e pesquisas que, porventura, venham a realizar, contribuindo assim para a produção de novos conhecimentos, em prol da humanidade. Desejo que cada um de vocês apresente a sensibilidade de compreender a grandiosidade humana de nos preocuparmos com as gerações futuras.

A responsabilidade com a promoção da saúde para além de nosso tempo e o bem-estar das gerações futuras estão, em alguma medida, intimamente ligados com o que vocês podem conhecer e documentar no tempo presente. Penso que essa não pode deixar de ser vista como uma outra grande responsabilidade da medicina, para além das curas individuais.

Uma segunda e última reflexão que proponho, por meio do relato do historiador, é sobre o compromisso que o médico tem com a saúde da população de forma a garantir a preservação da vida com qualidade.

O historiador Tucídides salientou o temor que permeava as mentes dos atenienses, na relação da doença com suas implicações sequenciais e das sequelas decorrentes, apresentando o homem enquanto ser social e não puramente como um corpo biológico que busca a cura física, mas que deve ter consciência do seu papel total no mundo.

Antes de se constituírem como profissionais da medicina, percebam-se enquanto indivíduos integrantes de uma coletividade.

Embora Tucídides não fosse médico, agiu, em parte, como se o fosse, ao tratar a doença considerando suas sequelas socioambientais e psicológicas, decorrentes de sua grandiosidade de se preocupar com a saúde do outro, numa visão de cuidado em seu alcance.

Notadamente, a história trouxe o registro da saúde como cuidado de pessoas em substituição ao de tratamento das doenças apenas no século 20. O conceito de saúde vinculado ao cuidado das pessoas substituiu o caráter meramente biológico do tratamento das doenças por uma visão ampliada de cuidado do bem-estar físico, mental e social para assegurar a vida humana – como um direito fundamental das pessoas, registrado em 1948 pela ONU.

Nesta reflexão, convido todos a pensar no legado deixado pelo historiador grego Tucídides, por sua preocupação de olhar o outro, de entender a saúde para além da doença.

Esta contribuição deu o direcionamento para a ampliação do conceito de saúde e para o desenvolvimento da competência técnica assistencial humanizada que permite olhar pessoas para além de uma queixa, um prontuário, um leito. Disponibilizar cuidados de saúde com preocupação humanizada, colaborar para prevenir novos agravos, dirimir danos e melhorar a qualidade de vida das pessoas.

A pandemia da covid-19 nos força a perceber o quanto a biologia pode reverberar no cotidiano sociocultural e o quanto os agentes da ciência, sobretudo os das ciências médicas, devem considerar tais ressonâncias para propor soluções além das próprias enfermidades, até mesmo para amparar decisões gerenciais. Desse modo, convido vocês a assumirem o compromisso científico da compreensão do corpo, da mente, e também da responsabilidade social de decisões que alterarão a dinâmica da coletividade, de forma colaborativa com as demais ciências e profissionais.

Estas são as reflexões que gostaria de deixar para vocês. Atentando que é preciso descobrir as curas das doenças dos seres humanos com competência técnico-científica e responsabilidade social, valorizando o cuidado com a saúde de cada indivíduo, como um direito à vida. De igual modo, com prudência e sensibilidade humana, observar as dinâmicas que dessas descobertas ressoam na sociedade, compreendendo que estas se somatizam ao corpo com sequelas de agravamento das suas enfermidades. É necessário conhecer a biologia humana e a ação de agentes externos ao corpo para buscar garantir o melhor cuidado com a saúde da população. É imprescindível dialogar com outros saberes profissionais e científicos que se integram em constante intercâmbio para a produção do conhecimento, de forma a assegurar melhores resultados. É preciso ser solidário ao sofrimento, à dor e às perdas sociais que afetam diretamente o biológico, alteram os comportamentos e modificam as escolhas das pessoas.

Se pudermos dizer que o vírus Sars-Cov-2, provocador da doença covid-19, poderá deixar algum legado para os brasileiros, este legado se registrará na solidariedade humana compartilhada em todos os cantos do mundo.

No Brasil, para além das iniciativas pessoais e de grupos solitários, temos a cobertura do SUS, organizado para um serviço de saúde em rede de atenção, preventiva e promocional, integrada para responder necessidades de saúde em todos os níveis do cuidado.

Em Sergipe, temos no curso de Medicina de Lagarto, uma representação da UFS, uma equipe de profissionais docentes e técnicos formadores de novos profissionais de saúde qualificados para o SUS, com destaque de ser pioneiro nesta modalidade de ensino na região, que atende às novas diretrizes curriculares para a formação médica. O curso forma médicos qualificados para o atendimento em rede de cuidados desde 2010 – este, sem dúvida, um grande ganho para a sociedade local.

Finalizo, assim, convicta de que a passagem pelos bancos da Universidade Federal de Sergipe contribuiu para uma formação integral de cada um de vocês. Toda a sociedade, que credita a confiança e o respeito a esta categoria profissional, anseia e urge para que possam contribuir com o enfrentamento de todas as mazelas sanitárias de nosso tempo, evidenciando, de todo modo, a importância de combater doenças, responder às necessidades de saúde das pessoas e melhorar a qualidade de vida da população assistida, tanto no presente como para as gerações futuras.

Muito obrigada.

Liliádia Barreto é reitora pro tempore da UFS.


Atualizado em: Qua, 23 de dezembro de 2020, 13:09
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