Qui, 30 de outubro de 2014, 09:32

A política e nova mídia no Brasil
A política e nova mídia no Brasil

Péricles Andrade


Uma das histórias mais lembradas na minha família se refere às tensões políticas envolvendo meus avós na década de 1940 no município de Lagarto em Sergipe. Ao final de uma eleição local disputada entre os tradicionais agrupamentos políticos, meus avós tiveram que se mudar para Estância em virtude de conflitos envolvendo familiares e adversários políticos. Por conta desta experiência, sempre fui alertado no âmbito familiar para não me envolver com os assuntos ligados a política. Confesso que tentei, mas fui um adolescente desobediente.


Na última eleição presidencial também constatamos tensões sociais envolvendo as escolhas políticas. Durante e após o pleito as discussões apaixonadas continuam como aconteceu nas demais eleições ocorridas ao longo da história. O pleito eleitoral de 2014 aponta muitas singularidades. Destaco aqui cinco: registra-se a votação presidencial com a menor diferença no segundo turno entre os presidenciáveis, elegeu-se uma agremiação partidária para governar um longo período à frente da Presidência da República (16 anos), constituiu-se um Congresso Nacional mais diversificado em termos partidários (28 legendas), explicitaram-se os limites de um pacto social envolvendo diferentes classes sociais e demonstrou-se o significativo papel da nova mídia. Acredito que outros analistas realizarão ensaios interpretativos para cada uma das questões aqui elencadas. Por uma opção temática me debruçarei em relação a essa última.


De fato, as interações sociais virtuais se tornaram uma febre nas eleições de 2014, principalmente na disputa presidencial. As primeiras eleições em que se verificou a presença significativa das interações via web foram àquelas realizadas em 2010. Nessa, a principal rede social era o Orkut (criada em 24 de janeiro de 2004 e desativada em 30 de setembro de 2014). Boatos e denunciais estiveram presentes naquele pleito, tendo o Orkut como o espaço virtual de protagonismos e tensões políticas. Por exemplo, a candidata Dilma Rousseff (PT) sofreu fortes críticas de lideranças religiosas durante toda a campanha por sua “biografia política pregressa”, por ter apoiado anteriormente a legalização do aborto e pelo fato de seu partido e seu governo defenderem o controverso III Plano Nacional de Direitos Humanos.


Obviamente que o fenômeno não é recente. Durante a década de 1980 surgiu uma nova mídia descentralizada e diversificada que preparou a formação de um sistema multimídia. Esta revolução tecnológica concentrada nas tecnologias de informação começou a remodelar a base material da sociedade em ritmo acelerado. Um novo sistema de comunicação que fala cada vez mais uma língua universal digital está promovendo a integração global da produção e distribuição de palavras, sons e imagens de nossa cultura, assim como também está se personalizando ao gosto das identidades e humores dos indivíduos. As redes interativas de computadores estão crescendo exponencialmente, criando novas formas e canais de comunicação, moldando a vida e, ao mesmo tempo, sendo moldados por ela (CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 9 ed., São Paulo: Paz e Terra, 2006).


Isso nos leva aquilo que se denomina de sociedade em rede (CASTELS, 2006). Posso apontar, sem esgotar a análise, alguns indicativos sociais que tornaram o mundo virtual mais tenso e prolongado espaço das tensões políticas. Em primeiro lugar, a ampliação das interações através da virtualidade ocorreu a partir da expansão e do acesso cada vez mais democratizado à Internet. Os custos dos serviços pagos caíram, as redes de cabos alcançam os bairros mais distantes, as “lan houses” estão cada vez mais extintas, as operadoras de telefonia celular disponibilizam aos clientes inúmeros pacotes promocionais e foram desenvolvidas novas tecnologias sem fio (wireless, wi-fi, bluetooth). Isso permitiu a constituição e divulgação de redes virtuais abertas em diversos locais, tais como aeroportos, rodoviárias, mercados, shopping centers, entre outros. O usuário pode se conectar, em alguns casos, de forma gratuita.


Em segundo lugar, a ampliação do uso mais constante da virtualidade se tornou mais evidente a partir da massificação dos aparelhos portáteis que permitem o acesso à Internet em qualquer local. Com smartphones, tablets, notebooks e netbooks massificados tornou-se comum constatar que todos estão mais conectados em locais diversos. Se na época do Orkut boa parte dos usuários interagia através de computadores de mesa ou portáteis, acessados em alguns casos de “lan houses”, atualmente todos estão conectados a partir dos respectivos smartphones e tablets em redes abertas ou via pacotes promocionais adquiridos junto as operadoras de telefonia móvel.


Em terceiro lugar, foram desenvolvidos programas acessíveis para aparelhos portáteis que permitem maior interatividade entre os usuários, tais como o Facebook (criado em 2004 e que tomou o lugar do Orkut), o Twitter (criado em 2006) e o “famigerado” WathsApp Messenger (criado em 2009). Não faltam pessoas conectadas, às vezes até por 24 horas, em casa, no trabalho, nas clínicas, nos restaurantes, em qualquer espaço social e privado. É comum observar pessoas “teclando” no trânsito (inclusive os agentes de fiscalização), em bares, em cultos religiosos, em estádios de futebol, entre outros. Além das conversas, não faltam entre os usuários do WathsApp Messenger compartilhamentos de temas relacionados à pornografia, futebol, trabalho, família, entre outros. Não falta criatividade para a constituição de grupos a partir das opões políticas, vínculos afetivos e todos os tipos de adesões e interesses ideológicos. O mundo virtual deixou de ser uma província habitada por um pequeno grupo de “fanáticos” por computadores para se tornar um recurso de consumo de massa para milhões de usuários. Seu poder está baseado na sua habilidade de superar as barreiras que limitavam o acesso de uma enorme massa de informações para os consumidores comuns, tornando-se o prático caminho para o ciberespaço. Por outro lado, tecnicamente todas as mídias estão se adaptando às novas perspectivas abertas pela digitalização dos seus produtos tradicionais (DIZARD JR, Wilson. A nova mídia: a comunicação de massa na era da informação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000).


Evidentemente que o mundo da política não estaria alheio a esta sociedade em rede. Obviamente não faltam grupos temáticos relacionados à política ou que essa não tenha sido o principal assunto discutido nas diversas comunidades nos últimos meses, além da Copa do Mundo em junho-julho de 2014. Nesse sentido, o boom virtual das eleições de 2014 é muito ilustrativo desta sociedade que capta em seu domínio a maioria das expressões culturais em sua diversidade, constrói um novo ambiente simbólico e transforma a virtualidade em realidade. Por outro lado, o sistema de comunicação integrado baseado na produção, distribuição e intercâmbio dos sinais eletrônicos digitalizados é muito mais democratizado. Isso significa dizer que além de consumidores virtuais somos também grandes produtores e compartilhadores de boatos, charges, notícias (“falsas e verdadeiras”), vídeos, imagens, músicas e ofensas em uma velocidade e quantidade assustadoras.


Posso ilustrar com alguns exemplos. O primeiro se refere à morte de Eduardo Campos, ocorrida num acidente aéreo em agosto. Não faltou criatividade para elaboração de todos os tipos de teorias conspiratórias quanto às causas do acidente e desrespeito quanto aos compartilhamentos das imagens dos corpos das vítimas. O segundo foram os inúmeros boatos. Alertou-se para o “fim da bolsa-família”, a “organização militar para um golpe de estado”, “a internação de um presidente para causar comoção nacional às vésperas do segundo turno”, “o suposto golpe dos meios de comunicação” e o “envenenamento de um doleiro”, dentro outros. Enfim, o episódio envolvendo a edição de uma revista de circulação nacional na última semana da corrida presidencial revela, de forma contundente, a criatividade e a velocidade de resposta dos consumidores no mundo virtual. A informação foi divulgada e rapidamente reelaborada por inúmeros usuários. Recebi em questões de minutos dezenas de capas parodiando a edição logo após a sua veiculação na web.


Desse modo, considerando a importância social e interativa alcançada nos últimos anos pela nova mídia, posso afirmar que nas redes sociais se verificam significativas tensões durante e pós o período eleitoral, reflexo desta sociedade em rede. Isso não desconsidera as tensões vividas nos espaços públicos nas cidades brasileiras envolvendo militantes e simpatizantes de diversos agrupamentos políticos. O que nos separa do exercício da política entre nossos antepassados que viveram as disputas na década de 1940 é a virtualidade das interações. Se naquela época as famílias se deslocavam no espaço físico como uma estratégia de sobrevivência, atualmente se constata, em alguns casos, a saída de usuários das redes sociais ou as exclusões de laços comunitários entre amigos, familiares e colegas de trabalho.


No Facebook os termômetros ainda não baixaram e deverão ainda continuar bastante altos por algumas semanas ou talvez meses. As ofensas de todos os tipos ainda perduram em relação às escolhas partidárias. Entretanto, ainda temos em comum com os nossos antepassados a constante necessidade de estabelecermos a tolerância e o respeito como princípio básico do exercício da política em suas diferentes adesões ideológicas. Essa é uma trilha fundamental à nossa existência enquanto uma sociedade cidadã e plural.


*Professor do DCS/NGCR/PPCR da UFS.



Atualizado em: Qui, 30 de outubro de 2014, 09:35
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