Ter, 24 de fevereiro de 2026, 13:04

“Caminhos que me Atravessam”: Artista Buga inaugura primeira exposição individual no Cultart
Mostra reúne 14 anos de pesquisa sobre apagamento feminino e resistência indígena, entre a rua e a universidade
Obra da exposição "Caminhos que me Atravessam" da artista Buga
Obra da exposição "Caminhos que me Atravessam" da artista Buga

No dia 4 de março, às 17h, o Centro de Cultura e Arte da UFS (Cultart) recebe a exposição “Caminhos que me Atravessam”, da artista visual e pesquisadora Juliana Vila Nova, conhecida como Buga. Primeira exposição individual e viabilizada pela Lei Paulo Gustavo, a mostra reúne 14 anos de produção, perguntas e insistência: uma trajetória que começa na rua, ganha fôlego na universidade e agora retorna ao espaço que ajudou a moldá-la.

Para Buga, expor no Cultart sendo egressa da UFS é mais que simbólico, é fechamento e abertura ao mesmo tempo. Segundo a artista, foi na universidade que ela aprendeu a organizar a própria intuição, a transformar o gesto rápido do grafite em pensamento estruturado, a entender que rua e academia não são opostas, são complementares. “É como dizer: eu continuo caminhando, mas estou aqui”, resumiu. Voltar ao prédio onde cursou disciplinas, amadureceu ideias e viveu conflitos e descobertas é, para ela, uma forma de devolver ao espaço um pouco do que recebeu.


Folder exposição
Folder exposição

O título da exposição funciona como um diagnóstico: os caminhos que atravessam uma mulher artista, que atravessam o corpo, a memória e a história. Caminhos da rua, onde tudo começou, com spray, coragem e pressa. Caminhos da universidade, onde o caos ganhou conceito. Caminhos de escolhas e cortes, de perdas e recomeços. Caminhos de outras mulheres que vieram antes e mostraram que era possível existir num sistema que historicamente tentou silenciá-las.

A pesquisa sobre o apagamento feminino na história da arte começou ainda na graduação, quando Buga percebeu a ausência recorrente de mulheres nos registros oficiais e nos discursos acadêmicos. Nomes reduzidos a notas de rodapé, produções ignoradas, assinaturas apagadas. O que parecia casual revelou-se estrutural. Desde então, essa inquietação atravessa sua obra, não como ilustração literal, mas como camada conceitual. Cada trabalho é também um gesto de arquivo, uma forma de dizer que isso existiu.


Juliana Vila Nova, conhecida como Buga, frente ao seu grafite
Juliana Vila Nova, conhecida como Buga, frente ao seu grafite

Os olhos que aparecem repetidamente nas obras são um fio condutor desta narrativa. Surgem camuflados, multiplicados, atentos. Olhos que revelam cansaço, força, medo, resistência. Ao lado deles, cores intensas e grafismos que carregam a marca da rua. O processo criativo não parte de um planejamento rígido; ele nasce do diálogo com o material. Uma mancha chama outra, uma linha puxa outra, até que a imagem começa a se revelar. No centro de tudo, uma pergunta insiste: o que sobra do que nos atravessa?

Entre as obras, uma das mais contundentes parte de uma tela encontrada no lixo, com a imagem de um Karapotó já desgastada pelo tempo. Ao intervir sobre ela, Buga optou por inserir a figura de um Espírito Santo, não como símbolo de fé, mas como denúncia da violência histórica da catequização sobre os povos originários. O rosto borrado não é acaso, mas sim um limite em que a memória do apagamento se torna real. A obra não fala por eles; ela aponta para aquilo que os silenciou.


Obra da exposição "Caminhos que me Atravessam" da artista Buga
Obra da exposição "Caminhos que me Atravessam" da artista Buga

Apesar da densidade dos temas, a artista não quer entregar respostas prontas. O que ela espera do público é o incômodo, o estranhamento, a vontade de permanecer alguns minutos a mais diante de uma imagem. “Se alguém sair diferente, mesmo sem saber explicar porquê, já valeu”, disse.

A exposição também se desdobra em partilha. No dia 9 de março, Buga realiza uma oficina gratuita de graffiti no Cultart. Mais do que ensinar técnica, a proposta é compartilhar o processo, mostrar que o spray pode ser linguagem política, estética e acadêmica ao mesmo tempo — assim como sua própria trajetória prova.

“Caminhos que me Atravessam” é, portanto, um mapa afetivo transformado em tinta. Um retorno à universidade sem abandonar a rua. Um gesto de memória e resistência que ocupa o espaço institucional sem pedir licença.

E, sobretudo, o anúncio de que essa caminhada continua.

O quê: Exposição “Caminhos que me Atravessam”
Abertura: 04 de março, às 17h
Oficina gratuita de graffiti: 09 de março
Onde: Cultart – Centro de Cultura e Arte da UFS

Ascom UFS


Atualizado em: Ter, 24 de fevereiro de 2026, 13:25
Notícias UFS