Qua, 08 de junho de 2022, 11:54

Egresso da UFS tem fotografias expostas na Espanha
Igor Matias apresenta fotografias de rituais da etnia indígena Kariri-Xocó obtidas para seu TCC
“Toré, Som Sagrado”, de Igor Matias. (Fotos: Adilson Andrade - Ascom UFS)
“Toré, Som Sagrado”, de Igor Matias. (Fotos: Adilson Andrade - Ascom UFS)

A cada mês, um brasileiro tem seu trabalho exposto no programa Residência Artística de Fotografia, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca (CEB/USAL), na Espanha. Em junho, o selecionado é Igor Matias, egresso do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe, com as fotografias de seu Trabalho de Conclusão de Curso. O projeto fotográfico de Igor, “Toré, som sagrado”, foi inaugurado no dia 31 de maio e segue em exposição até 30 deste mês na Sala de Exposições da instituição ibérica.

O projeto retrata elementos que remetem ao toré, que compõe parte do ritual Ouricuri, dos indígenas Kariri-Xocó, localizados em Porto Real do Colégio, Alagoas. “Eu nasci em Penedo, mas morei a maior parte da minha vida na cidade de Colégio”, conta Igor. “Até hoje percebo que existe uma relação de um pouco de distanciamento, de preconceito [entre a população ‘em geral’ e o povo indígena]. Tentei, com meu trabalho, romper um pouco com essa lógica”, completa.

“Eu também não tinha essa relação de proximidade intensa, em um território em que você vive, né? De modo geral, só fui perceber essa importância depois que comecei a estudar e principalmente quando entrei na academia”, diz. “É como se fosse um ‘acerto de contas’ comigo mesmo, sabe?”, pontua.


As fotografias estão expostas até 30 de junho na Sala de Exposições do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca. (Foto: Divulgação)
As fotografias estão expostas até 30 de junho na Sala de Exposições do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Salamanca. (Foto: Divulgação)

O ritual

As fotografias de Igor Matias integram o fotolivro elaborado por ele como parte do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Para a produção do fotolivro “Toré, Som Sagrado”, Igor focou principalmente nos elementos subjetivos do ritual do Ouricuri, mais especificamente o toré, já que esse é um dos elementos mais significativos do ritual.

“Por ser uma prática fechada para o não-indígena, a construção narrativa das imagens é baseada em informações gerais transmitidas por alguns nativos, a exemplo do Nhenety Kariri-Xocó, historiador da etnia, e por estudos desenvolvidos sobre o ritual, como os da antropóloga Vera Lúcia Calheiros Matta”, diz o estudante em seu trabalho.


Igor Matias é graduado em Jornalismo pela UFS.
Igor Matias é graduado em Jornalismo pela UFS.

O Ouricuri é um conjunto de danças e cantos exercidos como prática religiosa e secreta do qual apenas os indígenas podem ter acesso, praticado em um local aberto na mata, localizado a 6 km da parte alta da aldeia. Um dos principais elementos do Ouricuri é a terra, importante para a manutenção das tradições e cultura indígena.

Das 865 fotos feitas, 91 fotos foram escolhidas para compor a obra. Dessas, 32 são estáticas, da preparação para o início do toré; 5 são imagens feitas com um prisma; 44 em longa exposição, já com os indígenas dançando; e 10 são os retratos das pessoas que fizeram parte dos torés.

“Parte desses preparativos que antecederam o início do toré, como a preparação do local e a pintura dos corpos, acabaram sendo inseridos no fotolivro. Foi escolhido não focar muito nos rostos por entender que os retratos durante muito tempo reforçaram essa ideia de exotização do indígena. Além disso, foi percebido também que a escolha reforçava a atmosfera de mistério que a narrativa propunha”, justifica o trabalho de Igor.

Além do fotolivro, o jornalista apresentou também um trabalho acadêmico que dá sustentação teórica à realização do projeto.

“A linguagem [longa exposição] flerta muito com o artístico e fica essa coisa ‘será que isso é fotojornalístico, ou é um trabalho artístico?’, porque a linguagem acaba ficando um pouco mais abstrata”, explica.


Ele conta que a longa exposição acabou tendo uma função necessária ao trabalho, que é proteger o caráter reservado do ritual do Ouricuri.
Ele conta que a longa exposição acabou tendo uma função necessária ao trabalho, que é proteger o caráter reservado do ritual do Ouricuri.

Ele conta que a longa exposição acabou tendo uma função necessária ao trabalho, que é proteger o caráter reservado do ritual do Ouricuri. Para o texto acadêmico, pesquisou referências bibliográficas e sobre trabalhos jornalísticos realizados com grupos indígenas. Confirmou, então, que as coberturas jornalísticas geralmente pecam em não preservar as tradições e rituais dos povos retratados.

“Foi importante também entender o funcionamento da etnia, como foi que se deu o processo de colonização, principalmente aqui na região, em Alagoas, Sergipe”, observa.

Igor comemora a exposição de seu trabalho em uma instituição tradicional da Espanha, mas ao mesmo tempo está atento à simbologia que ela traz. “Achei relevante, inclusive, por ser justamente na Espanha, né? Porque, junto com Portugal e outros países da Europa, foi um dos principais colonizadores e dos que mais se utilizaram do indígena para seus interesses econômicos, comerciais”, disserta.

O “Toré, Som Sagrado” teve versões impressas apenas para a defesa do TCC no curso de Jornalismo e para uso pessoal. Igor agora procura apoio editorial para a impressão e comercialização da obra.


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O Programa

A Residência Artística de Fotografia, lançada em 2014, é um programa do CEB/USAL que seleciona anualmente propostas expositivas. Parte do prêmio é oferecer uma exposição física aos projetos selecionados, na Sala de Exposições. O objetivo é divulgar a produção de conhecimento sobre as iniciativas que melhor transmitam suas diretrizes de promoção da cultura brasileira na Espanha.

Segundo a instituição, os projetos fotográficos devem sempre guardar relação direta com o Brasil e se conectarem às linhas temáticas do programa: gênero; natureza; movimentos sociais; espaço urbano; comunidades e grupos étnicos; e cultura brasileira no mundo.

Marcilio Costa
comunica@academico.ufs.br


Atualizado em: Qua, 08 de junho de 2022, 12:03
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